Empresários, banqueiros e juristas preparam manifesto contra golpe

Por Josival Pereira

Para além das últimas articulações dos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais ou da cega polarização entre Bolsonaro contra Lula e seguidores de ambos, começa a se formar um movimento no entorno da política que talvez se constitua no mais importante acontecimento dessa nebulosa conjuntura nacional.

Trata-se de um manifesto pela democracia e em defesa do sistema eleitoral, concebido na Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), para ser lançado em 11 de agosto, nas arcadas do Largo de São Francisco, um espaço marcado por lançamentos de históricos movimentos da sociedade civil na luta pela democracia, a exemplo de um de 1977, contra a ditadura militar. A data marca a criação dos primeiros cursos jurídicos do Brasil.

O movimento é a principal manchete desta terça-feira do jornal O Estado de S. Paulo, o Estadão: “Empresários e banqueiros aderem a carta aberta em defesa da democracia”. O tema é abordado em reportagem de página inteira no jornal (página A6). A manchete é complementada por uma chamada, decantando que o manifestado tem entre os signatários Roberto Setúbal e Cândido Bracher, do Itaú Unibanco, e Guilherme Leal, da Natura.

A novidade está aí. Empresários e banqueiros, além economistas, diplomatas, juristas de renome e lideranças da sociedade civil organizada, estão assinando a carta e aderindo ao movimento. São mais de 6 mil assinaturas. Entre nomes de peso do mundo empresarial e financeiro, estão Frederico e Luiza Trajano (Magazine Luíza), Pedro Moreira Salles (Unibanco), Carlos Jereissati (Igautemi), Eduardo Vassamin (Votorantim), Horácio Lafer Piva (Klabin), Walter Schalka (Suzano), além de muitos outros. Entre os juristas, destaque para os ex-ministros do STF Celso de Melo, Sepúlveda Pertence e Carlos Ayres Brito.

O texto da carta não menciona o nome do presidente Jair Bolsonaro. Um acordo para permitir adesão mais ampla. Todavia, foca na defesa, com vigor, do sistema eleitoral brasileiro e das urnas eletrônicas. Num trecho, assevera que o país está “passando por um momento de imenso perigo para a normalidade democrática, risco às instituições da República e insinuações de desacato ao resultado das eleições”.

Noutra parte, o manifesto lembra as manifestações que resultaram na invasão do Capitólio, Estados Unidos, classificando-as de “desvarios autoritários”. “Lá, as tentativas de desestabilizar a democracia e a confiança do povo na lisura das eleições não tiveram êxito, aqui também não”, brada.

Há uma expressa defesa das urnas eletrônicas no texto: “Nossas eleições com o processo eletrônico de apuração têm servido de exemplo no mundo. Tivemos várias alternâncias de poder com respeito aos resultados das urnas e transição republicana de governo. As urnas eletrônicas revelaram-se seguras e confiáveis, assim como a Justiça Eleitoral”.

Durante toda a tarde, a manchete principal do site de O Estadão destacava uma decisão da diretoria da poderosa Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo: “Diretoria da Fiesp dá aval para movimento em defesa da democracia e da Justiça Eleitoral”. A segunda informação era que o presidente da entidade, José Gomes da Silva, havia sido aplaudido ao anunciar apoio ao ato organizado pela Faculdade de Direito USP.

O manifesto não cita Bolsonaro, mas vai de encontro a tudo que o presidente tem defendido.  É um manifesto contra golpe.

O ministro da Casa Civil da Presidência, Ciro Nogueira, tentou minimizar o movimento, argumentando que os banqueiros estão contra Bolsonaro por causa do PIX, que teria tirado lucros dos bancos. Erra porque os banqueiros são apenas meia dúzia do movimento.

Não dá para minimizar. Essa carta pode se constituir no mais importante fato da campanha eleitoral deste ano. Talvez o mais devastador. Agosto está bem aí.

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