Bolsonaro e a Petrobras: estupidez ou malevolência?

Por Josival Pereira

O presidente Jair Bolsonaro fez um discurso longo (mais de 1 hora), durante um evento evangélico, em Manaus (AM), reafirmando sua decisão de propor, já nesta segunda-feira, uma CPI para investigar a Petrobras. O suposto motivo seria a nova alta dos preços dos combustíveis.

Sem ponderação alguma, o presidente bradou, em sua fala, que a Petrobras havia perdido R$ 30 bilhões do valor de mercado nesta última sexta-feira, quando anunciou pela primeira a intenção da CPI, e iria perder outros R$30 bilhões na segunda-feira. O prejuízo da sexta-feira foi de R$27,3 bilhões (queda no valor de mercado).

Não deu para perceber se Bolsonaro manifestava raiva ou contentamento com o prejuízo da estadual. Uma espécie de vingança talvez, mas algo inexplicável.

Primeiro, porque a CPI não vai baixar os preços dos combustíveis. Uma CPI não tem poder para tal. Pode até criar uma confusão e segurar os preços por um tempo.

Bingo. Acertou quem concluiu que a intenção de Bolsonaro pode ser essa mesmo: transferir a culpa pela alta de preços para acionistas minoritários e segurar novos reajustes durante a campanha eleitoral. Medida claramente eleitoreira.

A Petrobras tem muita responsabilidade pelo elevado preço de combustíveis, que subiu estupidamente no atual governo por causa da política de paridade ao preço do barril de petróleo no mercado internacional aprovada no governo Temer. Focou no lucro. Mas o presidente não pode se isentar do problema.

O Estado brasileiro, representado pelo governo, na pessoa do presidente, permanece no controle da Petrobras, com 50,3% das ações ordinárias, aquelas com direito a voto. Ou seja, se for competente, consegue dar todo o direcionamento à empresa.

O problema é que o presidente Bolsonaro padece de carência de atributos administrativos. Vários setores do governo sofrem com a insuficiência de gestão. O governo está indicando o quarto presidente para a Petrobras e não consegue controlar a empresa. O novo vai entrar apenas para segurar os preços durante a campanha.

Quando o preço do barril de petróleo começou a disparar no mercado internacional, economistas e políticos sugeriram a criação de um fundo de estabilização, usando os próprios dividendos dos lucros recebidos pelo governo (R$37,3 bilhões em 2021 e R$17,5 bilhões no primeiro trimestre de 2022) A ideia era simples: com subsídio, segura-se o preço dos combustíveis, não contamina inflação, evitando, assim, efeitos mais graves na economia durante o período de crise. Depois, tira-se o subsídio.

O governo Bolsonaro fez ouvidos de mercador, depois disse que era impossível se mexer na política de preços da Petrobras, prometeu pagar R$ 29 bilhões aos Estados pela redução de ICMS só em 2022, e agora já anuncia intervenção política com a CPI.

Evidente que é impossível se resolver problemas tão complexos por caminhos tão frágeis e tortuosos. Ninguém, no governo, tem uma proposta equilibrada para conter o preço dos combustíveis? Mas talvez não haja desequilíbrio nisso. Não dá para não suspeitar que agindo, de um lado, para jogar o povo contra a Petrobras (que também tem sua culpa), e, do outro, causando graves prejuízos à empresa, o propósito não seja, depois, privatizá-la por preço lá em baixo.

Estupidez ou malevolência? Eis a questão.

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