Pesquisa: homens brasileiros seriam insatisfeitos, endividados, ansiosos, presos ao passado e conservadores

A coluna de Thaís Oyama, publicada no UOL, nesta quinta-feira, reproduzida abaixo, é muito mais do que interessante. Reproduz dados de uma pesquisa sobre o pensamento do homem brasileiro e analisa os números, refletindo sobre seus reflexos na sociedade e até nas eleições. Vale muito para se compreender a realidade conflitante e conflituosa, contraditória e paradoxal, além de complexa e de difícil entendimento vivida no país.

Thaís Oyama

Perfil do brasileiro “machista” é chave para entender eleição de Bolsonaro

“O que pensa o homem brasileiro”.

Este é o título da reportagem que a revista GQ deste mês fez com base em pesquisa realizada pelo instituto Ideia.

A metodologia e o perfil da amostra — que engloba homens maiores de 18 anos de todo o país, pertencentes a grupos econômicos, sociais e religiosos selecionados de acordo com a distribuição da população — permitem dizer que ela reflete a opinião do eleitorado masculino brasileiro.

O resumo da pesquisa pode parecer estarrecedor para alguns. E óbvio para outros.

Alguns pontos de destaque: perguntados sobre a “importância da virgindade feminina”, 45% dos entrevistados disseram que ela é “um pouco importante”, “muito importante” ou “fundamental”.

Quase um quarto dos pesquisados (24%) declarou que teria dificuldade em lidar com um filho homossexual (outros 21% preferiram não responder à questão); e 31% disseram que não dormiriam no mesmo quarto que um homem com orientação sexual diferente da sua.

Sobre o aborto, 58% dos entrevistados disseram achar que ele deveria ser considerado crime; e apenas um terço disse apoiar o feminismo (44% declararam seu “não apoio” à causa e 23% preferiram não responder).

Por fim, se em relação à autoestima, os brasileiros parecem não ter do que reclamar (apenas 3% declararam se achar feios e 30% disseram se achar mais inteligentes do que a média), isso não quer dizer que estejam de bem com a vida.

Quase 60% afirmaram ter uma vida profissional insatisfatória; 70% se declaram endividados; 74% reclamaram de ansiedade, e 34% disseram ter tido eventos de depressão e 26% de pânico.

A pesquisa traz ainda dados de comportamento masculino relacionados à moda, esporte e saúde.

Exemplo disso seria o fato de que, para metade da população masculina, os ícones do esporte nacional ainda são Pelé e Ayrton Senna (o primeiro longe dos campos há mais de 50 anos; e o segundo morto tragicamente 28 anos atrás).

Na visão de Moura, isso indica que, para a maior parte dos homens brasileiros, “os heróis, as referências, os sonhos e as aspirações habitam um passado distante”. Já o presente parece “duro, estressante e cercado de frustrações”.

Os homens representam 48% do eleitorado brasileiro.

Na eleição presidencial de 2018, 63% desse público votou em Jair Bolsonaro no segundo turno.

Nesta eleição, o favoritismo do ex-capitão entre o eleitorado masculino deve se repetir, como mostrou a pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem (39% dos homens brasileiros declararam voto para Bolsonaro contra 24% das mulheres).

O perfil traçado pela revista GQ, com base na pesquisa do Ideia, dá pistas claras não apenas sobre as razões desse favoritismo.

Ele mostra a face crua de um grupo social que não se reconhece no discurso progressista (em favor do aborto, do feminismo, da diversidade de gêneros), se sente carente de heróis, frustrado em suas perspectivas, seus anseios, seu trabalho e o seu presente.

E que, por esses e outros motivos, vê na figura de Jair Bolsonaro, senão uma saída, uma quase vingança.

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