Bolsonaro não sabe com quantos paus se faz uma canoa

Por Josival Pereira

Em julho deste ano (2021), já corria, na Alemanha, a campanha eleitoral para escolha do chanceler (chefe de governo) que iria substituir Angela Merkel, dona do cargo há 16 anos.

Pouco mais de um mês antes, as pesquisas indicaram a liderança da candidata dos Verdes (Partido Verde), Annalena Baerbock, mas por aquela época o candidato apoiado por Merkel, Armin Laschet, da União Democrata (CDU), já havia assumido a dianteira nas pesquisas e era apontado como o favorito para vencer a disputa. 

Além da chanceler Angela Merkel desfrutar de altíssima popularidade, Laschet era governador do Estado mais populoso da Alemanha, a Renânia do Norte-Vestfália, e tinha fama de competente, decidido e com certo carisma. 

O outro candidato era Olav Sholz, do Partido Social Democrata (SPD), ministro da Economia da aliança do governo Merkel, mas tido como um político apenas pragmático, frio e sem carisma. A social-democracia não ganhava eleições há 16 anos.  

Eis que a natureza se insurge furiosa, faz transbordar o rio Ahr, e inunda o norte da Alemanha e alguns outros países. Só na Alemanha foram mais de 100 mortos. 

O candidato sem carisma correu para a região inundada, se solidarizou com as vítimas, prestou assistência e, como Ministro da Economia, anunciou a liberação de bilhões para, além do socorro aos desabrigados, promover a recuperação econômica e social da região.

O governador do Estado mais atingido, candidato favorito à chefia do governo federal, demorou nas ações de assistência e, alguns dias depois, foi flagrado pela imprensa rindo solto num evento em homenagem aos mortos e vítimas das enchentes. 

Resultado: parou de crescer nas pesquisas, depois perdeu pontos preciosos e o vencedor das eleições nacionais na Alemanha, em setembro, foi o sem carisma Olav Sholz. 

Uma eleição é resultado de diversos fatores conjugados, mas, algumas vezes, uma única ocorrência, um detalhe numa conjuntura de dúvidas, acabam sendo decisivos, sobretudo, nestes tempos de elevada sensibilidade social para temas humanitários e ambientais. 

O texto vem a propósito das inundações na Bahia e das férias do presidente Jair Bolsonaro. Repetindo uma constante de quando cobrado, Bolsonaro desdenha e é apoiado por ministros e aliados. Não devia, pela obrigação e responsabilidade. Nem os apelos eleitorais parecem sensibilizá-lo. Corre risco desnecessário e ainda afronta o bom senso. O exemplo da Alemanha não é de se desprezar. Pode acabar no meio de uma tormenta eleitoral, na campanha de 2022, e sem saber com quantos paus se faz uma canoa.    

Adicionar comentário

PUBLICIDADE
Blog do Josival Pereira © 2022 . Todos os direitos reservados.