Deu esquerda no Chile: um jovem de 35 anos vence o Bolsonaro polido

Por Josival Pereira

Os mais militantes vão comemorar gritando que deu esquerda nas eleições presidenciais do Chile.

É verdade. Mas talvez seja um pouco mais: a vitória de Gabriel Boric, de 35 anos, representa o triunfo da democracia em seu sentido mais pleno. A opção da sociedade chilena foi pelo o avanço das liberdades, não pelo retrocesso de direitos, embora se a maioria do povo tivesse escolhido o candidato direitista também teria sido uma escolha democrática. Mas a opção foi a de se afastar cada vez mais do passado autoritário.

Todos os modelos de desenvolvimento e de governos experimentados no mundo atualmente apresentam problemas graves, mas já se constata, apesar de lentamente, que os países que adotam compromissos sociais na busca pela redução das desigualdades e cultivam as liberdades mais amplas são os que estão dando mais certo.

O povo do Chile fez uma opção, nas urnas, com muitos detalhes que precisam ser observados com atenção porque representam novidade na quase sempre frágil democracia da América Latina.

Começa que o novo presidente, Gabriel Boric, é, efetivamente, um quadro da nova geração da esquerda. Surgiu no movimento estudantil de 2011, que defendia o ensino público e gratuito, e se tornou líder popular nos protestos de 2019. Difícil saber se esses detalhes vão ajudar ou não na gestão, mas é interessante se anotar, por exemplo, que Boric não se afina com as velhas esquerdas que continuam defendendo regimes como os da Venezuela e da Nicarágua, inegáveis ditaduras. Pode ser um sopro democrático nestas terras de líderes tão caudilhescos.  

Inicialmente, era apontado como um esquerdista radical, mas durante a campanha moderou o discurso e fez acordos para incorporar propostas da social democracia ao seu programa de governo e aproximou-se da Concertación, frente de centro-esquerda que já governou o Chile em pelo menos 20 anos desde o fim da ditadura (1990). A Chile, como outros países da região, precisa de ponderação para pôr fim à polarização. 

Interessante também se observar que Boric não era de nenhum partido tradicional, assim como seu principal concorrente, o conservador Antônio Kast, que defendia abertamente o legado da ditadura de Pinochet e ideais sobre costumes muito parecidas com as de Bolsonaro. Tanto que era chamado de o Bolsonaro polido. O destaque aqui é que os velhos partidos chilenos foram fragorosamente derrotados. Ainda que não pareça, existe um vento expurgando velhos esquemas políticos em todo o continente.  

Observe-se ainda que a vitória de Boric significa o mais profundo corte com o passado da ditadura militar e o que se seguiu no Chile, que foi um modelo neoliberal, guiado por uma Constituição da era Pinochet. Uma nova Constituição está sendo elaborada e o novo presidente se elegeu prometendo acabar o modelo privado de previdência, saúde e educação, que são eixos do neoliberalismo no país. Serão testados, ao mesmo tempo, uma nova e moderna Constituição e um presidente novo (jovem).

Além de tudo isso, o resultado das eleições no Chile (55,9% para Boric e 44,8% para Kast) devolve a tendência de governos de esquerda na América Latina, conforme eleições nos últimos anos (México, Argentina, Bolívia, Peru, Honduras; a direita venceu no Brasil, Colômbia, Equador e Uruguai). O Brasil, em 2022, pode manter o equilíbrio de forças na região, pelo tamanho e importância, ou avançar pela esquerda.

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