A grandeza da transposição no Sertão e a seca de projetos para aproveitá-la

Por Josival Pereira

Um bom pedaço do Sertão do Estado da Paraíba está ganhando segurança hídrica plena. Trata-se da área polarizada pelos municípios de Cajazeiras e Sousa. São 300 mil pessoas de 24 cidades com água de beber garantida por muitos anos. Mesmo em períodos de seca. 

É que as águas da transposição do rio São Francisco começaram a chegar ao Sertão. Devagar e mansamente as águas estão atravessando o túnel Cuncas I e enchendo o reservatório Morros, em terras de São José de Piranhas. 

Demorou, mas o Eixo Norte da transposição está praticamente pronto. Faltam restos de obras. Valeram as dezenas de mobilizações, caminhadas, debates e editoriais nos jornais e emissoras de rádio de Cajazeiras e região (alguns deles com nossa assinatura) desde o início dos anos 1980, quase tudo puxado pelo agrônomo Adalberto Nogueira (já falecido).

O presidente Jair Bolsonaro acompanhou, nesta quinta-feira, a chegada das águas no reservatório Morros e deu por inaugurado o último trecho da transposição na região, um canal de oito quilômetros ligando a barragem de Caiçara ao açude Engenheiro Ávidos, na região de Cajazeiras. Esta última obra tem assinatura do presidente Bolsonaro. 

As obras da transposição chegaram ao município de São José de Piranhas em 2010, com o canal Cuncas I, de 15,5 quilômetros, considerado o maior para transporte de água da América Latina. O Cuncas I tem a assinatura do ex-presidente Lula, que o visitou em 2010, antes de deixar o governo.

Logo que deixa o túnel, as águas do São Francisco vão para o reservatório Morros, que é pequeno e tem o objetivo de estabilizar a água para redistribuição. De lá, as águas vão para a barragem Boa Vista, com capacidade para acumular até 330 milhões de metros cúbicos, e daí seguem através do canal Cuncas II, de quatro quilômetros, para a barragem de Caiçara (30 milhões de metros cúbicos), no município de Cajazeiras. 

A barragem Boa Vista e o canal Cuncas II são do governo Dilma Rousseff. A barragem de Caiçara começou com Dilma e foi concluída por Michel Temer. 

Somente as barragens da transposição vão acumular mais de 360 milhões de metros cúbicos. Os outros açudes públicos da região – Engenheiro Ávidos (253 milhões), Lagoa do Arroz (80,3 milhões), São Gonçalo (44,6 milhões), Capivara (37,5 milhões e Bartolomeu (17,5 milhões) têm capacidade para acumular outros 440 milhões de metros cúbicos.   

Assim, a água para beber está garantida. A distribuição sem problemas de interrupção fica agora sob a responsabilidade do governo do Estado. Já existem os sistemas adutores para cada cidade, mas para não haver crises em nenhuma sede em períodos de estiagens prolongadas vai precisar da interligação de sistemas. Projetos a serem cobrados. 

Além de tudo isso, o complexo da transposição no Sertão vai servir para “eternizar” o Rio Piranhas, como definiu o ministro Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional). O Piranhas vai levar as águas para a barragem Armando Ribeiro (2,4 bilhões de metros cúbicos) na região de Assu, no Rio Grande do Norte, que já recebe águas do paraibaníssimo Coremas. Por isso, o ministro tinha elevado interesse na conclusão do Eixo Norte da transposição. 

Mas tem um detalhe significativo. Na barragem Armando Ribeiro as águas servem mais para irrigação do que para consumo humano. São 3.766 hectares irrigados na área, associados a 922 polígonos agrícolas. No Sertão da Paraíba, dentro da área abrangida pela transposição, só existe o Perímetro Irrigado de São Gonçalo, na região de Sousa, e existe uma seca de projetos para aproveitá-la. 

Um desafio das autoridades e dos políticos da Paraíba é fazer as águas da transposição também renderem para a irrigação e o desenvolvimento econômico e social da região.

Sem isso não faz sentido. 

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